Dinâmica Produtiva da Indústria de Confecções de Vestuário em Goiás

Sérgio Duarte de Castro*

Leila Brito**

 

Resumo: Este artigo traça um panorama da dinâmica produtiva do setor de confecções em Goiás, com destaque para os APL’s- Arranjos Produtivos Locais de confecções de Goiânia e Jaraguá. Apresenta a origem, características e desempenho dos dois arranjos no período recente, bem como mostra o dinamismo do setor em Goiás fundamentado na evolução do emprego, renda e crescimento do número de empresas do setor no Estado. Especialmente estão sendo focalizadas as potencialidades do setor de confecções em Goiás.

Palavras-chave: Indústria de confecções, vestuário, cadeia produtiva, APL’s-Arranjos Produtivos Locais

Introdução

A indústria de confecções, integrante do complexo têxtil, subdivide-se nos segmentos de vestuário, meias e acessórios, linha lar e outros. Esta indústria caracteriza-se, do ponto de vista estrutural, por uma forte fragmentação e diversidade de escalas e técnicas produtivas. Seu mercado, por outro lado, é extremamente segmentado, com um grande número de produtos e com consumidores fortemente diferenciados no que diz respeito a padrão cultural, nível de renda, idade e outras características. (Bastos, 1993a:6)

Seu processo produtivo é composto pelas etapas de criação, modelagem, enfesto, corte, montagem ou costura, acabamento e passadoria, sendo que a fase de costura corresponde à cerca de 80% da atividade. As inovações tecnológicas no setor concentram-se nas primeiras etapas, de desenho e corte, com utilização de sistemas CAD/CAM (Computer Aided Design e Computer Aided Manufacturing). A fase de montagem, com pequena possibilidade de automação, continua baseada na velha máquina de costura[1], com intensa utilização de mão de obra.

No que se refere à organização da produção, as mudanças apontam para a substituição de linhas de montagem por células de produção, implementação de sistemas de qualidade e de just in time, buscando responder as necessidades do mercado, onde o papel determinante da moda e estilo demanda sistemas cada vez mais flexíveis.

Em função do custo da mão de obra, a tendência dos países desenvolvidos tem sido de deslocar a produção para países em desenvolvimento, através de subcontratação, concentrando-se no gerenciamento de suas marcas e em toda a logística associada. A subcontratação tem se dado na forma de encomendas, onde o contratante define modelos e especificações e prazo de entrega, ou através de outward processing, que consiste no deslocamento da etapa de costura para os países com baixos salários. (Bastos, 1993b:2)

Os países que têm melhor aproveitado as oportunidades de exportação baseadas em outward processing ou em encomendas dos países centrais são: Hong Kong, China, Taiwan, Turquia e Tailândia.  Na América Latina, a Jamaica e o México vêm ampliando de forma acelerada sua participação nesse mercado, fornecendo, sobretudo, para os EUA.  A participação do Brasil nas exportações mundiais de confecções, embora apresente uma tendência de crescimento nos últimos anos, é ainda inexpressiva.

No Brasil, a heterogeneidade da indústria de confecções é ainda maior que a média mundial. Uma parcela expressiva é constituída por firmas defasadas tecnologicamente, que privilegiam o mercado interno e têm sua estratégia competitiva baseada fundamentalmente no preço. Um grupo menor é constituído de empresas relativamente modernas, voltadas para nichos do mercado interno de mais alta renda e que vêm fazendo um certo esforço exportador, que enfatizam estratégias de controle de qualidade e diferenciação de produtos. A heterogeneidade, entretanto, é acentuada entre as firmas que atuam em todos os segmentos do mercado (Bastos, 1993a:7). De acordo com a ABRAVEST (2003), 96% das empresas de confecções do país são de micro, pequeno ou médio porte.

A produção de confecções no Brasil está fortemente concentrada nas Regiões Sudeste e Sul do país, mas verifica-se um movimento de desconcentração nos últimos anos, com um aumento da participação relativa do Nordeste e do Centro-Oeste. Apesar de sua pequena participação relativa, o Norte e Centro-Oeste foram as regiões do país que apresentaram maior crescimento no número de estabelecimentos no segmento entre 1997 e 2004 como pode ser observado na Tabela 1.

Tabela 1

Indústria de Confecções*, número de estabelecimentos por região (1997-2001-2004)

Regiões

1997

2001

2004

Variação (%)

Uni.

Partic. %

Uni.

Partic. %

Uni.

Partic. %

NORTE

262

0,8

276

0,8

1.129

1,36

330,92

NORDESTE

3453

10,6

4329

11,8

10.894

13,11

215,49

SUDESTE

19696

60,6

19942

54,2

42.061

50,61

113,55

SUL

7341

22,6

9782

26,6

23.066

27,76

214,21

CENTRO-OESTE

1731

5,3

2468

6,7

5.954

7,16

243,96

TOTAL BRASIL

32485

100

36797

100

83.104

100

  155,82

* CNAE, Grupo 181

Fonte: RAIS-MTE

Dentro da região Centro-Oeste, o Estado em que o número de confecções mais cresceu foi Goiás. Sua participação no total de plantas instaladas no Centro-Oeste, que já era de 73,0% em 1997, evoluiu para 83,0% em 2001 e 75,63% em 2004, conforme pode ser verificado na Tabela 2.

Tabela 2

Goiás - Indústria de Confecções*, número de estabelecimentos e participação relativa (1997-2001-2004)

 

1997

2001

2004

No de Plantas

2491

3895

4503

Participação % no Brasil

3,9

5,3

5,42

Participação % no Centro-Oeste

73,0

78,4

75,63

* CNAE, Grupo 181

Fonte: RAIS-MTE, 2004

 

A indústria de confecções em Goiás concentra-se em Goiânia e em alguns pólos municipais como Jaraguá, Trindade, Anápolis, Jataí, Rio Verde e Catalão. Destacam-se os Arranjos Produtivos Locais[2] (APLs) do setor de confecções, de Goiânia e Jaraguá.

2-Perfil do Arranjo Produtivo Local de Goiânia

2.1 Origem e Desenvolvimento

Estima-se que as primeiras indústrias de confecções de Goiânia surgiram por volta da década de 1960. Algumas das empresas pioneiras atuam até hoje, como a “Planalto Confecções”, instalada em 1964, que trabalha ainda atualmente confeccionando calças e camisas. Também a “Confecções Nova Plan” criada em 1966, produzindo artigos do vestuário, e de cama e mesa, que hoje atua apenas na comercialização desses produtos no varejo. Igualmente a “Confecção Scala”, fundada em 1967 por Antônio Meneguello, hoje “Bulk Confecções”, implantou a ‘modinha’ com vendas somente no atacado, e hoje atende também ao mercado varejista.

À medida que surgiam, as firmas foram se concentrando fortemente em 3 regiões da cidade. Uma nas imediações do setor Campinas, na Rua Alberto Miguel, antiga Avenida Bahia; outra em torno da Avenida Bernardo Sayão, no setor Fama; e uma terceira na Avenida 85, no setor Marista, e suas adjacências. Cada um desses núcleos tem sua própria história.

Na década de 1980, mesmo com a recessão que o país enfrentava, o setor de confecções consolidou-se em Goiânia, principalmente na Avenida 85 e adjacências do setor Marista, e na Avenida Bernardo Sayão, no setor Fama.

O dinamismo do segmento em Goiânia contribuiu para a difusão da atividade confeccionista nos municípios da Grande Goiânia. Particularmente, nos municípios de Aparecida de Goiânia e Trindade verifica-se um crescimento expressivo no segmento (CASTRO, 2004b).

 

2.2 Principais Agentes do Setor Produtivo

De acordo com a RAIS 2004, o município de Goiânia possui 2.745 empresas com 17.527 empregados no segmento de confecções, o de Trindade tem 100 empresas, empregando 1.813 pessoas e o de Aparecida de Goiânia, registra a presença de 161 empresas com 1.393 pessoas empregadas no ramo.

A participação maior de trabalhadores no ramo encontra-se no município de Goiânia que corresponde a 85,0% do total do APL. Mas no que se refere ao porte, 94,6% das empresas de confecção do arranjo podem ser classificadas como microempresas, 5,2% como pequenas e 0,3% com média empresa, portanto não registrando empresas de grande porte no arranjo (Rais 2004)

O salário médio no arranjo é superior ao do segmento no Estado e ligeiramente menor do que o registrado no Brasil.

 

Tabela 3

APL de confecções da região de Goiânia - Número de empresas e de empregos totais na indústria de confecções nos municípios do arranjo, em Goiás e no Brasil (1997 – 2004)

Locais

1997

2004

Variação (%)

 

Municípios

No Empresas

No Empregos

No Empresas

No Empregos

Empresas

Emprego

Aparecida de Goiânia

49

312

161

1.393

228,57

346,47

Goiânia

1.606

10.403

2.745

17.527

70,92

68,48

Trindade

62

1.339

100

1.813

61,29

35,40

APL

1.717

12.054

3.006

20.733

75,07

72,00

Goiás

2.491

17.250

4.503

29.393

80,77

70,39

Brasil

65.678

516.960

83.104

672.614

26,53

30,11

Fonte:CNAE95 181 RAIS – MTE, 2004

Ele é 7% maior do que o da indústria de confecções em Goiás, mas corresponde a 81% do salário médio registrado no país . Dentre o conjunto de municípios que forma o APL da região de Goiânia, Aparecida de Goiânia é a que apresenta o maior salário médio (R$ 425,58) e Trindade o menor (R$ 345,04).

O emprego registrado no APL da região de Goiânia representa 70,54% do segmento no Estado de Goiás e 3,1% em relação ao do Brasil. Assim, com o salário médio maior que ao registrado no Estado, o APL tem uma maior participação da massa salarial gerada no segmento (74,0%) do que a participação no emprego (Rais, 2004).[3]

 

2.3- Desempenho recente e potencialidades do APL Goiânia

A expansão do emprego na indústria de confecções no arranjo, no período de 1997 a 2004, foi de 72,00%, pouco superior a verificada no Estado de Goiás (70,39%) e bem acima ao registrado no Brasil (30,11%). Os municípios que compõem o APL que mais contribuíram para essa importante elevação foram Aparecida de Goiânia (346,47%) e Goiânia (68,48%) (tabela 3).

A Confecção é um dos setores que mais cresceu na indústria de Goiás e tornou-se referência nacional nos últimos anos. Além de ser fortemente empregador esse segmento tem um elevado poder de interação local e, por conseqüência, de dinamização das economias em que ele se encontra inserido. 

A expressiva participação da indústria de confecções no total de empregos dos municípios do arranjo e o elevado número de empresas de atividades relacionadas ali existentes, especialmente a densa rede de serviços urbanos (RSU) que floresce em função da indústria, revelam o alto poder de impacto do APL sobre a economia local. 

A realização de feiras na capital goiana atrai mensalmente revendedores da região norte, nordeste e centro-oeste do país, buscando produtos com preços acessíveis e de boa qualidade. Isto vem contribuindo muito para dinamizar a economia da região de Goiânia e propiciando um incremento nos rendimentos para os trabalhadores do segmento de confecções e das atividades correlatas.

O dinamismo do segmento de confecções em Goiás nos últimos anos, tem sido expresso nos seus indicadores. Entre 1997 e 2004 a indústria confeccionista no estado cresceu a taxas sistematicamente superiores à média nacional. Enquanto o número de empresas na indústria de confecções no Brasil apresenta um crescimento acumulado de apenas 26,53%, entre 1997 e 2004, e o número de empregados de 30%, no mesmo período, em Goiás, o número de empresas e de empregos crescem respectivamente 80,8% e 70,4% no segmento (RAIS-MTE, 1997- 2004). Essa indústria encontra-se presente em um grande número de municípios no estado, no entanto as principais aglomerações são a de Goiânia, juntamente com Trindade, e a de Jaraguá, integrada com os municípios vizinhos de São Francisco de Goiás, Itaguaru e Uruana.

Nessa última aglomeração, a concentração geográfica de firmas de confecção atraiu para a região outros segmentos da cadeia, e contribuiu para a intensificação das relações produtivas, comerciais e tecnológicas no seu âmbito, assim como as relações das empresas com instituições locais - como associações empresariais, universidades, instituições de capacitação de RH, e órgãos estaduais e federais de suporte - caracterizando a existência de um arranjo produtivo local com grande potencial de desenvolvimento Delegacia do sindicato laboral que tem prestado serviço na orientação aos trabalhadores sobre direitos e deveres e homologações evitando litígios desnecessários entre o capital e o trabalho.

Uma pesquisa foi desenvolvida através da realização de entrevistas com os principais atores institucionais do arranjo, além da aplicação de questionário elaborado pela RedeSist em uma amostra das empresas de confecção da região. A amostra, estratificada por porte de empresas e municípios do arranjo, constituiu-se de 66 empresas do setor e foi aleatoriamente selecionada a partir do cadastro da RAIS[4].

O objetivo da pesquisa foi de caracterizar o arranjo, procurando entender sua dinâmica, especialmente no que diz respeito à interação e cooperação inter-firmas e/ou instituições para o aprendizado e a inovação. O trabalho ainda, identificou as dificuldades e potencialidades do APL para, a partir delas, apontar sugestões de política para seu desenvolvimento.

 

3-Perfil do Arranjo Produtivo Local de Jaraguá

3.1-Origem e Caracterização do APL de Jaraguá

O arranjo produtivo da região de Jaraguá é uma aglomeração produtiva especializada no setor de confecções, uma indústria tradicional, fortemente heterogênea e competitiva, com um regime tecnológico caracterizado pela maturidade e pela baixa complexidade da tecnologia (Bastos, 1993;Gorini,2000).

Jaraguá situa-se a 107 km da capital do estado, Goiânia, e tem uma população de pouco mais de 33 mil habitantes. A atividade de confecção no município teve início em meados dos anos 80. A localização estratégica da cidade, às margens da Belém-Brasília, favoreceu a penetração de seus produtos no mercado regional de baixa renda. No final dos anos 80 e início dos 90, a abertura comercial e o crescente interesse e consumo de produtos de vestuário importados no país estimulou a produção local de versões falsificadas das principais marcas mundiais de jeans e camisetas pólo, com o uso de etiquetas falsificadas de alta qualidade. A dimensão assumida pela produção de artigos falsificados em Jaraguá gerou a reação de distribuidoras dos produtos importados no país, e a conseqüente intensificação da fiscalização. Desde então, o arranjo reduziu pouco a pouco a informalidade e a ilegalidade e o município foi se consolidando como um importante pólo de confecções na região. O dinamismo da atividade em Jaraguá estimulou a implantação de empresas confeccionistas nos municípios vizinhos, como São Francisco de Goiás, Itaguaru e Uruana.

Segundo dados da RAIS-MTE (2004), existem na região 514 empresas formais de confecção, sendo 482 localizadas em Jaraguá, 8 em Itaguaru, 19 em São Francisco de Goiás e 5 em Uruana. No seu conjunto elas empregam 3.439 trabalhadores, que representam 92,5% dos trabalhadores formais na indústria de transformação na região. 

Do total de 147 microempresas, 67 estabelecimentos (46%) empregam não mais do que 4 pessoas, outros 50 (34%) possuem menos de 10 empregados, e apenas 30 (20%) situam-se entre 10 e 19 trabalhadores. 

A mão-de-obra no APL possui algumas peculiaridades, ela apresenta uma maior participação masculina, é mais jovem, com um maior grau de escolaridade e com salários menores do que a média do estado e a média nacional. A participação masculina na força de trabalho no segmento em Jaraguá é de 53%, contra 29% em Goiás e 23% no Brasil. O número de trabalhadores no município que possui o segundo grau, completo ou incompleto, corresponde a 52% no total, enquanto eles representam 38% no estado e 31% no país. Por outro lado, 93% dos empregados em confecções em Jaraguá recebem até 1,5 salários mínimos, enquanto esse percentual é de 50% no estado e 39% no país (RAIS-MTE, 2001).

Além das unidades industriais, segundo o SEBRAE-GO (2003), em Jaraguá localizam-se 30 firmas exclusivamente de varejo de confecções que comercializam, principalmente, produtos locais.

Entretanto, um censo das empresas do APL, realizado pelo IEL em 2005, abrangendo também as firmas informais, aponta a existência de um total de 606 empresas confeccionistas no arranjo - incluindo-se nesta categoria as confecções e as facções de montagem, corte e acabamento - número que chega a 673 quando incorporadas todas as empresas da cadeia que integram o APL. O total das empresas da cadeia emprega 5.150 pessoas, sendo 4.110 apenas no município de Jaraguá.     

Não existem produtores locais de equipamentos, tecidos e outros insumos básicos da indústria de confecções, o que dificulta as interações produtivas e tecnológicas com os segmentos da cadeia produtiva. Entretanto, a presença de representantes locais e atacadistas daqueles produtos funciona como um canal importante de informação sobre novidades e tendências em seus campos respectivos (CASTRO, 2004a).

 

Tabela 7

Número de Empresas do APL de Confecções da Região de Jaraguá, por segmento (2005)

Segmentos

Jaraguá

Itaguaru

São Francisco

Uruana

Total

Confecção

194

8

14

9

225

Facção

133

2

24

5

164

Corte

5

 -

1

6

Acabamento (pre-lavagem)

16

 -

-

16

Acabamento (prós-lavagem)

159

 -

23

13

195

Total (1)

507

10

61

28

606

Bordagem

5

 -

4

9

Lavanderia

9

1

1

 -

11

Estamparia

1

 -

1

Modelista/Estilismo

3

1

 -

 -

4

Representante Comercial

15

2

2

2

21

Transportadora

5

 -

5

Fornecedor

16

 -

-

-

16

Total Cadeia

561

14

64

34

673

Fonte: elaboração própria com base em dados do  IEL - 2005[5]

 

3.2-Desempenho Recente do APL de Jaraguá

A indústria de confecções na região apresenta, desde o início dos anos 90, um ritmo de expansão bastante acelerado e muito superior à média do estado e do país.

A produção do APL é bastante segmentada, incluindo camisetas de malha, pijamas, vestidos, camisas, calças, bermudas, biquínis e roupas íntimas, nas linhas masculina, feminina e infantil. Prevalece, entretanto, o vestuário sazonal, ou de “modinha”, com destaque para o jeans. São, em geral, produtos de pequeno valor agregado, destinados principalmente a mercados de baixa renda, cuja concorrência baseia-se, sobretudo, em preços.

Os preços reduzidos, que constituem a base da competitividade das firmas locais, sustentam-se principalmente em baixos salários e em um alto nível de terceirização informal. O salário médio nas confecções do arranjo corresponde a, respectivamente, 81% e 67% da média do segmento no estado e no país (RAIS-MTE, 2004). Por outro lado, segundo dados da pesquisa, 73% das empresas locais terceiriza parte de seu processo produtivo.

Segundo Bastos (1993:7), a terceirização tem sido uma solução dinâmica para a indústria de confecções em vários países que têm se destacado no segmento, como a Itália. A montagem de redes de unidades produtoras, coordenadas por uma empresa central, dá grande flexibilidade e rapidez à produção. O autor observa, entretanto, que no Brasil “esse processo vem se confundindo com informalização, ou seja, constitui um mecanismo que visa principalmente contornar obrigações tributárias e trabalhistas”. Seu objetivo é principalmente possibilitar “corte de custos, pelo lado da redução dos encargos sociais e impostos, e não pelos ganhos de produtividade, como ocorre em outros países”. É esse tipo de terceirização que predomina no APL. 

É preciso destacar, contudo, que o grau de formalização das firmas confeccionistas do APL da região de Jaraguá cresce rapidamente, e já é muito superior ao que se verifica na maior parte das aglomerações de MPEs do segmento que se localizam em estados menos desenvolvidos no país.

A pesquisa revela que a maior parte dos mercados atendidos pelas firmas do arranjo - 53% no caso das micro-empresas e mais de 80% no caso das pequenas e médias – localizam-se fora do estado. O Mato Grosso aparece em primeiro lugar nas menções sobre os principais destinos das vendas das empresas locais, seguida de perto, em segundo lugar pelo Distrito Federal.  Dividindo o terceiro lugar aparecem o Pará e o Tocantins. Em quarto lugar surge Minas Gerais e, empatados em quinto, Bahia e São Paulo.

Na maior parte dos pólos confeccionistas do interior do Brasil, onde a produção destina-se principalmente à população de baixa renda, parte importante da distribuição está associada a feiras semanais ou pontos centrais de venda na cidade, que normalmente atraem caravanas de compradores. Em geral, ônibus de “sacoleiros” oriundos das regiões compradoras são fundamentais no processo de distribuição desses pólos.

Na região de Jaraguá, não existe nenhum ponto central dessa natureza, bem como as empresas estão dispersas pela cidade e muitas não possuem sequer identificação externa. A distribuição se dá, principalmente, através da ação de representantes comerciais que se deslocam até os principais mercados. Parte dos produtores do arranjo, entretanto, mantém pontos de venda na “Feira Hippie”, em Goiânia, importante centro de distribuição de produtos confeccionados da capital, que recebe semanalmente dezenas de ônibus de compradores de diversas partes do país.

No APL, 97% das firmas são micro e pequenas e 3% têm médio porte, não existindo nenhuma grande empresa. No que se refere a governança[6], apesar de não existirem diferenças de tamanho significativas entre as firmas locais, verifica-se certa heterogeneidade entre elas, sobretudo no que diz respeito à utilização de equipamentos mais sofisticados e processos automatizados por parte de algumas, que prestam serviços mais avançados às demais. Nada, entretanto, que possibilite a essas empresas desempenharem um papel de coordenação das atividades econômicas e tecnológicas no APL. Assim, entre as confecções, em que pese a heterogeneidade mencionada, tem-se uma relação não hierárquica entre as empresas. Entretanto, em torno destas firmas encontra-se uma grande quantidade de pequenas facções sub-contratadas, em geral informais, constituindo um emaranhado de micro-redes hierarquizadas (CASTRO, 2004a).

As confecções do arranjo foram implantadas fundamentalmente com capital próprio e assim permaneceram. A pesquisa revelou que 93% do capital, das firmas do APL tem origem em recursos dos empresários, e apenas 7% são oriundos de financiamento bancário, sendo que menos de 1% têm origem em empréstimos de instituições oficiais. Esse dado é revelador da flagrante ineficiência dos atuais instrumentos de crédito disponíveis para as empresas de micro e pequeno porte no país.

O problema principal parece estar na dificuldade dos recursos chegarem até a ponta do sistema. Perguntados sobre quais são os principais obstáculos que limitam seu acesso a fontes externas de financiamento, os empresários responderam que as dificuldades não estão principalmente na inexistência de linhas de crédito ou no volume de recursos disponíveis, e nem mesmo nas taxas de juros, mas sim em entraves burocráticos, dificuldades cadastrais, assim como nas elevadas exigências de garantias por parte das instituições de financiamento.

No que se refere ao perfil dos empresários, a pesquisa mostra que a maior parte dos empreendedores do arranjo não tem tradição no segmento empresarial. Apenas 22,7% dos sócios fundadores principais das firmas eram empresários antes de montar seu negócio e, para um percentual semelhante, seus pais tiveram essa profissão. As informações quanto ao grau de escolaridade, dão conta de que a maior parte dos empreendedores, 62,1% do total, tinha o segundo grau completo quando fundou a empresa. Em 19,7% dos casos eles tinham o grau superior incompleto e apenas uma parcela diminuta, 1,5% do conjunto, tinha curso superior completo.[7]

Enfim, o setor de confecções tem sido um dos mais dinâmicos da economia goiana nos últimos anos, e esse dinamismo se deve, em grande medida, ao desempenho dos APLs de Goiânia e Jaraguá, onde as economias de aglomeração, a articulação entre os agentes e políticas públicas agressivas têm proporcionado grande competitividade às micro e pequenas empresas locais.

Referências

BASTOS, Vicente. Estudo da competitividade da indústria brasileira: competitividade da indústria de vestuário nota técnica setorial. Campinas: IE/Unicamp, 1993a.

_______________. Estudo da Competitividade da indústria brasileira: competitividade do complexo têxtil nota técnica do complexo. Campinas: IE/Unicamp, 1993b.

 

CASTRO, Sérgio Duarte. O arranjo produtivo de confecções da região de Jaraguá-Go. Relatório de atividades da Rede de Pesquisa em Sistemas Produtivos e Inovativos Locais. UFRJ. Instituto de Economia. Março, 2004a. Disponível em <www.ie.ufrj.br/redesist>

 

___________________ . Características e desempenho do arranjo produtivo de confecções da região de Goiânia-Go. Goiânia, SEBRAE-Go, 2004b, mimeo

 

GORINI, Ana Paula Fontenelle. Panorama do setor têxtil no Brasil e no Mundo: Reestruturação e perspectivas. Rio de Janeiro:BNDES, 2000.

 

IEMI Instituto de Estudos e Marketing Industrial. Indústria Têxtil Brasileira. Estudo de fatores de atração de investimentos. São Paulo, 2002, mimeo.

 

LASTRES, Helena M.M; CASSIOLATO (2002). Interagir para competir. Promoção de arranjos produtivos e inovativos no Brasil. Brasília:CNPq/FINEP/SEBRAE.

 

SEBRAE-Go - Estudo sobre arranjos produtivos locais. Segmento de confecções. Relatório Preliminar. Goiânia, 2003, mimeo. 

 



* Doutor em economia pela UNICAMP, Professor Titular do Dep. de Economia da UCG, Vice-Presidente do IGTF, Gerente de Atração de Investimentos da SIC-GO. scastro@brturbo.com

** Economista e Supervisora Técnica do DIEESE em Goiás. leila@dieese.org.br

[1] Como observa Bastos (1993a:24): “....a etapa de montagem - que concentra a maior parte do trabalho empregado (80%) - ainda utiliza máquinas de costura que mantêm basicamente a mesma concepção dos primeiros modelos utilizados, a despeito de melhorias relacionadas à microeletrônica nelas introduzidas.”

 

[2] O termo “Arranjo Produtivo Local” refere-se a “aglomerações territoriais de agentes econômicos, políticos e sociais, com foco em um conjunto específico de atividades econômicas e que apresentam vínculos e interdependência. Geralmente, envolvem a participação e a interação de empresas (...) e suas variadas formas de representação e associação. Incluem, também, diversas outras instituições públicas e privadas voltadas para: formação e capacitação de recursos humanos, como escolas técnicas e universidades; pesquisa, desenvolvimento e engenharia; política, promoção e financiamento” (LASTRES e CASSIOLATO, 2002)

 

[3] A mão-de-obra no APL de Confecções da região de Goiânia possui comportamento semelhante ao do setor em Goiás e no Brasil, a maioria é do sexo feminino, a faixa etária predominante é a de 25 a 39 anos e há um número maior de trabalhadores que possui 1º grau de escolaridade (Rais 2004)

[4] Os dados secundários constantes no trabalho foram atualizados para essa publicação e algumas análises posteriores foram acrescentadas.  

[5] Dados do censo de empresas realizados pelo IEL em 2005, por demanda no conselho gestor do APL da região de Jaraguá. O censo incluiu também Goianésia entre os municípios de abrangência do arranjo. Os dados desse município, entretanto, não foram inseridos na Tabela1, para manter a delimitação do APL proposta nesse artigo.   

[6] “Governança diz respeito aos diferentes modos de coordenação, intervenção e participação, nos processos de decisão locais, dos diferentes agentes (...) e das diferentes atividades que envolvem a organização dos fluxos de produção, assim como o processo de geração, disseminação e uso de conhecimentos” (Glossário, RedeSist, 2003).

 

[7] A mão-de-obra no APL possui algumas peculiaridades, ela é mais jovem e possui um grau de escolaridade bem maior do que a média nacional. Mais de 50% dos empregados do arranjo tem menos de 24 anos e 48,9% do total têm pelo menos o ensino médio completo. No Brasil (RAIS-TEM) apenas cerca de 35% dos empregados em confecções estão naquela faixa etária e 31% apresentam o mesmo nível de escolaridade.